Uma AVÓ que é um doce de MÃE!

 

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Sabe aquelas pessoas que, na mesma hora em que você bate os olhos, despertam em você uma simpatia imediata e praticamente irresistível?
E que, depois, quando você tem oportunidade de conversar e conhecer melhor, todas as suas melhores impressões sobre esta pessoa são confirmadas?
Pois bem, assim é Aparecida, a avó da jovem autista Jasmyne, de 16 anos.
Tive a oportunidade de conhecê-la em bate papos da sala de espera. Enquanto aguardávamos nossos meninos e meninas, trocávamos experiências e repartíamos nossas angústias, tristezas e alegrias.
Em determinado ponto de nossa conversa, ela interveio e começou a narrar um pouquinho de sua história de VIDA ( é isso mesmo: vida com letras maiúsculas, pois Aparecida é daquelas que desconhecem a palavra impossível).
Enquanto ela falava, não conseguia conter minha admiração e surpresa. À primeira vista, ela é uma jovem vovó daquelas que sentimos vontade de pedir colo e encher de beijos e carinhos.
Quem vê seus olhos azuis, se perde facilmente na mansidão e na calmaria  de seu olhar.
Sua fala doce e ritmada soa como música para os ouvidos, mesmo quando conta as dificuldades e as intempéries pelas quais já passou ao lado da neta/filha querida.
Ninguém imagina que esta mulher sensível e gentil, praticamente, não recebeu amor de mãe, pois perdeu a mesma aos 5 anos de idade, tendo ido morar com uma tia. Somente aos 8 anos voltou a conviver com o pai, quando este se casou novamente. Casou-se aos 20 anos e teve dois filhos.
Seu filho mais novo, ainda muito jovem, foi pai aos 17 anos, e com o nascimento desta criança Aparecida tornou-se muito mais do que avó, pois teve que desempenhar os papéis de mãe e pai para a pequena Jasmyne.
O marido de Aparecida foi o primeiro a notar que poderia haver algo de diferente no desenvolvimento da neta. Aos 3 meses, o avô observou que a bebezinha agitava as mãozinhas de forma estranha e repetitiva e que, raramente, mantinha contato ocular com os demais.
Entretanto, Aparecida conta que este fato não lhe causou preocupação. Não que ela não levasse em consideração as observações de seu esposo, longe disso. Sem saber explicar bem por que, Aparecida SENTIA, dentro de seu coração, que Jasmyne era diferente, mas esta certeza, estranhamente, não lhe despertava receio.
Mais tarde, tendo a oportunidade de conhecer uma senhora autista, Aparecida teve o insight de que era justamente aquela síndrome que sua neta tinha.
Embora os pais de Jasmyne tenham permanecido casados até a menina completar 8 anos, foi Aparecida quem a criou desde o seu nascimento. Sua primeira infância foi muito difícil, permeada de problemas respiratórios: rinites, sinusites e pneumonias foram constantes na vida da menininha. E vovó Aparecida não media esforços para ajudar sua neta.
Aos 4 anos, a entrada na escola não contribuiu em nada. Sem saber como lidar com a menina, os professores a deixavam livre pela escola, pois ela não conseguia ficar “presa” na sala de aula. Aparecida notava a pouca evolução da neta, mas os professores insistiam em minimizar as dificuldades e procuravam comtemporizar os problemas.
Inconformada com a parca evolução pedagógica de Jasmyne, ela retira a criança da escola e resolve investir em uma outra proposta. Pede à vizinha, que trabalha com alfabetização de crianças, para ajudar sua menina. Em menos de um mês, a vizinha chama Aparecida e conta que não será possível continuar com as aulas, pois suspeita que a menina tenha a mesma dificuldade que seu próprio filho tem: dislexia.
Aconselhada pela amiga a procurar um neurologista, Aparecida recebe do primeiro profissional consultado o diagnóstico de dislexia severa.  No fundo, Aparecida sabia que havia muito mais por trás daquela dislexia. Resolve então procurar outro profissional que, confirmando suas certezas, é taxativo: Jasmyne é autista de alto funcionamento.
Aparecida então move céus e terras e todas as dificuldades se tornam pequenas e irrisórias frente à sua vontade em ajudar sua menina – é assim que ela,carinhosamente, chama a neta: “minha menina”. Jasmyne surpreende a todos com sua incrível vontade de aprender e se desenvolve a olhos vistos.
A todos aqueles que duvidavam que seria possível, Aparecida responde com a evolução da neta. Percebendo na neta uma habilidade incomum para o desenho e pintura em geral, ela investe nestas terapias e o resultado é FANTÁSTICO!!!  Em pouco tempo, Jasmyne mostra um talento raro e, mais importante do que isso, consegue expressar através de suas pinturas, sentimentos e sensações represados em seu coração e  quem sabe até adormecidos em seu inconsciente.
A caminhada é dura e árdua, sem dúvidas! Mas, quando questionada sobre qual seria a maior dificuldade já enfrentada, Aparecida não titubeia em responder, do alto de sua extrema sabedoria, que a dificuldade maior que elas enfrentaram e ainda enfrentam é o monstro chamado PRECONCEITO!!!
Nada a machuca mais do que enfrentar, diariamente, no trajeto de mais de uma hora entre sua casa e a terapia, os olhares e os comentários maledicentes, preconceituosos e incompreensivos das pessoas.
E é justamente neste momento que, pela primeira vez, escuto Aparecida abandonar o tom manso e calmo que traz em sua voz. Seu tom de voz sobe alguns decibéis e se torna embargado e triste, porém não se nota desânimo ou resignação! Ela afirma, categoricamente, que JAMAIS irá abaixar a cabeça para o preconceito das pessoas, assim como nunca levou em consideração aqueles que disseram que era impossível…
Antes da conversa terminar, pergunto a ela qual é a receita desta força, jovialidade e superação. Olhando-me nos olhos, de forma doce, porém firme, ela sorri dizendo: AMAR INCONDICIONALMENTE!
A porta se abre e nossas crianças e jovens saem trazendo para o ambiente um doce e velho conhecido nosso, aquele burburinho com o qual já estamos acostumados.

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