Mãe de uma pessoa com necessidades especiais por um dia

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Sempre que entramos de férias, tenho a oportunidade de vivenciar sentimentos e sensações extremamente conflitantes. Fico feliz e aliviada pela chegada das férias e,  juntamente com ela, a chegada  do merecido “descanso” ( descanso?) e, por outro lado, triste e frustrada em testemunhar acontecimentos e situações envolvendo meu menino e  suas tentativas, por vezes, fracassadas de socialização e interação.

E foi justamente refletindo sobre estas tentativas infrutíferas e o porquê das mesmas acontecerem que nasceu a ideia deste post.

A grande verdade é que procuramos (a grande maioria de pais e familiares, grupo no qual me incluo) sempre manter nossos filhos em “ambientes supostamente protegidos”. Explico: são aqueles locais em que as pessoas já sabem das peculiaridades dos nossos meninos e meninase, de uma certa forma, conhecem, entendem e, acima de tudo, COMPREENDEM nossos autistas, aceitando-os com carinho e amor exatamente do jeito que são.

A escola, por exemplo, costuma ser um lugar onde encontramos este acolhimento. Infelizmente, existem exceções. E é com pesar que reconheço a existência de muitas escolas em que a atmosfera não é acolhedora. Muito pelo contrário: o clima que nossos autistas encontram é inabitável…

O ambiente terapêutico é outro em  que, salvo terríveis exceções, nossos anjos azuis se sentem em casa, amados e compreendidos.

Também sei e reconheço que será IMPOSSÍVEL manter meu filho para sempre em ambientes seguros. Ele precisa voar e crescer e não posso protegê-lo para sempre (embora devo admitir que gostaria!).
Assim sendo, com a chegada das férias, os ambientes seguros saem de cena e dão lugar à inóspita e LOUCA selva de pedra em que vivemos. Sempre que presencio meu filho abordando as crianças e perguntando se pode se juntar a elas em uma brincadeira, fico muito feliz! Nós todos sabemos como isto é uma vitória e quanto tempo levamos para chegar lá.

Quantas dificuldades já foram enfrentadas! E quantas outras ainda virão pela frente!

Entretanto, nestas férias tive o dissabor de vivenciar uma cena que, enquanto vida eu tiver, infelizmente, hei de me lembrar…por mais que me esforce para esquecer.

Estávamos em um clube e meu menino se aproximou de um grupo de crianças na piscina.

De longe, observei sua aproximação e abordagem. Ele se apresentou,  dizendo seu nome e sua idade. Fiquei orgulhosa, pois sua abordagem foi perfeita e educada. Entretanto, o grupo de crianças não respondeu.

Aguardando o retorno que não aconteceu, João Pedro insistiu e perguntou os nomes dos meninos. Novamente, o que ele obteve como reposta foi o silêncio. Ansioso e perplexo com a falta de respostas, ele perguntou se poderia brincar com as crianças. O menino mais velho do grupo, que devia ter 9 ou 10 anos, começou a gargalhar!

Os demais riram  também na sequência. João Pedro olhou a todos em seu redor, aturdido e perdido. Não consegui mais me conter e a LEOA que mora dentro de mim assumiu as rédeas do meu corpo e de meus sentimentos.

Infelizmente, não cheguei a tempo de evitar o comentário maldoso do menino que parecia ser olíder do grupo: “você fala errado! Você NÃO vai brincar com a gente! De que planeta você é?”  O grupo caiu em um riso uníssono. João Pedro, ingenuamente, ainda encontrou forças para responder que “era” do planeta Terra…

Com a cabeça doendo e o coração em frangalhos, me aproximei e chamei por ele. Ele veio nitidamente confuso. Para minha surpresa, a mãe de um dos meninos estava presente e assistiu a toda a situação sem esboçar NENHUMA reação!

A presença da mãe me causou revolta e me enojou. Crianças podem ser cruéis e muitas vezes ofender aos outros, mas cabe aos pais, adultos, orientá-las e educá-las, ensinando-as a ter respeito, carinho e solidariedade ao próximo.

A faca que estava próxima de meu coração é cravada de vez com a pergunta do João Pedro:  “Mamãe, o que eu fiz de errado?”. Tentando não chorar, respondi a ele, em um tom de voz alto o suficiente para que os meninos e, PRINCIPALMENTE, a MÃE pudessem  ouvir o que tenho a dizer. “VOCÊ não fez nada de errado. Eles é que fizeram. Não são educados, por isso não te responderam e riram de você. Não estão acostumados com educação. Mas a culpa não é deles. É da mãe, que não lhes ensina as coisas certas.”

A criatura arregalou os olhos e me olhou com reprovação. Ergui minha cabeça e saí, de mãos dadas com meu filho, fazendo-o esquecer que tinha sido ridicularizado e menosprezado pelas crianças. João Pedro olhou  na direção dos “amigos” e balançando a cabeça, cheio de piedade, disse: “coitadinhos deles, mamãe!”

Olhei na direção da mãe. Sua raiva transpareceu com nitidez. Pela primeira vez, encarei seu olhar e mantive durante algum tempo. Confesso que estava esperando, pronta para encarar uma discussão. Mas ela desviou o olhar e abaixou a cabeça. Pois é…

Pensei que, se ela estivesse em meu lugar, saberia o quanto dói ter um filho ridicularizado.

O quanto machuca ver seu filho implorando para brincar. O quanto a rejeição dói. Mil vezes eu preferiria ter sido rejeitada e ridicularizada no lugar de meu filho. Mil vezes!

Mil vezes e quantas outras fossem necessárias…

Se ela soubesse…

Ah, se ela fosse mãe de uma criança com necessidades especiais!

Se TODOS pudessem ser pais e mães de crianças, jovens ou adultos com necessidades especiais, por um dia, um único dia…

Se vivessem e sentissem na pele o que sentimos, o que sofremos…

Talvez pudessem entender…talvez ensinassem outros valores a seus filhos.

Nossos sofrimentos, em grande parte, não são oriundos das limitações que a síndrome de nossos filhos nos traz. Muito de nossa DOR vem do preconceito, das humilhações, do bullying, da falta de respeito, da falta de amor, da falta de solidariedade…

Frágeis, inocentes e ingênuos, nossos filhos são presas fáceis da maldade e da intolerância do ser humano, independente de que idade possuam.

Da mesma forma, podemos observar crueldade e bullying por parte de crianças que, mesmo sendo ainda muito pequenas, já sabem ridicularizar, ferir e machucar o próximo, apenas por algo que lhes cause estranheza ou, simplesmente, pelo “crime” de ter nascido DIFERENTE!

Entretanto, NÃO culpo estas crianças! Diariamente, as mesmas recebem estímulos em casaneste sentido: pais, mães e familiares que, comumente, tecem comentários maledicentes e pejorativos sobre negros, deficientes, homossexuais, obesos e etc…

Estas crianças crescem em um ambiente contaminado, poluído, repleto de uma POBREZA de valores morais e espirituais.

A inversão de valores é nítida! Você é reconhecido pelo que tem e não pelo que você É!

Seu caráter e retidão nada valerão se você não possuir bens materiais, por exemplo.

Tristes tempos onde a inversão de valores impera e a cultura dominante forma “cidadãos”

(se é que podemos chamá-los desta forma) que julgam seus semelhantes pelo que eles têm ou, ainda pior, que se acham no direito de se considerar superiores ao próximo pelo fato deste próximo ser diferente (ou deficiente ).

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