Por falta de estrutura da escola, estudante autista repete série pela 3ª vez

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  • Sem dificuldades de aprender, alunos autistas ficam retidos porque escolas não têm salas pequenas em todas as séries

Mayara tinha dois anos e meio quando, após os pais notarem que ela não pronunciava uma única palavra, foi diagnosticada com autismo. Hoje, aos dez, ela fará o 3º ano do ensino fundamental pela terceira vez. E não é por dificuldade no conteúdo. Longe disso.

Lucinete luta para que a filha Mayara tenha educação

Apesar de não se comunicar, aos 3 anos ela já sabia ler, conta a mãe, Lucinete Ferreira de Andrade, presidente da Associação Brasileira de Autismo e Intervenção (Abraci). Atualmente, consegue acompanhar o conteúdo. “Hoje a Mayara é alfabetizada, está trabalhando com números, mas não retiro o desgaste que foi”.

Um desgaste que, em partes, continua. Pelas características próprias do autismo, Mayara tem dificuldade de comunicação e socialização. Por isso, precisa estudar em salas com poucos alunos. O que, na escola em que estuda, só existe até o terceiro ano.

Logo, quando iria passar para o quarto ano, em uma sala com muitos alunos, Lucinete precisou procurar a Defensoria e entrar com um pedido para que a filha não fosse promovida e continuasse a frequentar as aulas na sala de integração inversa, que comporta no máximo 15 alunos.

“É claro que eu queria que ela fosse adiante, mas ela não pode ficar em uma turma grande, ainda mais sem monitoria. A sala grande, além de assustar, não tem tanto suporte. O professor não consegue falar ao lado da criança. A criança com autismo precisa de um atendimento diferente.”

Leia mais: Para 72% dos pais de criança autista, escola não ajuda no aprendizado do filho

Inclusão de crianças autistas em escolas regulares é possível, diz especialista

A falta de infraestrutura também é uma realidade para outros pais. Ana Paula dos Santos Carvalhos, 33, dona de casa, é mãe de duas crianças com autismo: Gabriel, oito anos, e Verônica, de nove. Neste ano, os dois deixaram a sala de integração inversa e começaram a estudar em um classe de tamanho padrão, com cerca de 30 alunos.

Eles acompanham a matéria, mas têm suas limitações. O autismo é uma caixinha de surpresa. O Gabriel fica bastante frustrado na presença de muitas pessoas. Gostaria de manter, ao menos por mais um ano, os meninos na sala de integração inversa”.

A diretora ofereceu a mudança para o período da tarde, que tem as turmas de integração inversa, mas Ana Paula não aceitou porque é o período em que elesfrequentam as atividades terapêuticas. O combinado é que, caso eles não se adaptem à nova sala, a direção tentará outro esquema.

Muitos alunos na sala

Sem opção de salas pequenas, a dona de casa Luciene Pereira de Almeida, 34, tenta ajudar Felipe, o filho autista de 9 anos, a adaptar-se ao ambiente populoso. “É muito difícil porque a audição dele é muito sensível. Ele não gosta de barulho, então quer sair do local, chora, é muito sofrido”, afirma.

Atualmente, Felipe cursa o 5º ano do ensino fundamental em uma sala com 22 alunos. Se tivesse opção, Luciene matricularia o filho em uma turma menor. Mas desde que fosse com alunos de sua idade e série. “Ele precisa estar incluído com alunos da sua idade. (…) Mas se ele estivesse em uma sala menor, seria melhor para seu aprendizado. Se tem muito barulho, ele não consegue copiar ou fazer atividades. Com menos alunos, ele conseguiria entrar no mesmo ritmo das outras crianças.”.

Falta estrutura para atendimento

Questionada pelo iG, a responsável pela política de inclusão da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Maraisa Borges, afirmou que os estudantes passam por equipes de avaliação para definir em que sala ficarão. Eles podem ser encaminhados para salas menores – que têm de dois a quinze alunos – ou para uma sala regular.

Maraisa disse, ainda, que os pais podem solicitar um docente para acompanhar o aluno nas salas regulares, mas admite que não é fácil conseguir o profissional na rede pública “por falta de professores”.

O primeiro passo, orienta, é procurar a regional de ensino responsável pela escola. Um caminho que Lucinete diz já ter percorrido. “Já procurei. Fazer esse caminho é o mais fácil. O problema é que a Mayara não pode ficar em uma sala grande, e não tem sala de integração inversa no 4º ano”, diz.

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