O legado de Linda

O legado de Linda

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E “Amor à Vida” chega ao fim. Junto com o término da trama, damos adeus também à personagem Linda , a jovem com autismo, vivida pela atriz Bruna Linzmeyer. Tenho acompanhado a repercussão nas redes sociais.

Entretanto, resolvi aguardar o término da novela para expor meu ponto de vista e a linha de raciocínio utilizada para embasar meu pensamento.

Para iniciarmos nossa análise, gostaria de relembrar o imenso clamor popular que houve (por parte de um maioria esmagadora de pais e familiares de autistas , embora houvesse aqueles que não aprovassem a ideia) para que o tema autismo fosse abordado em uma produção da emissora.

Choveram e-mails cobrando a abordagem do assunto. Depositávamos nossas fichas na esperança de que uma simples menção ao fato em uma novela, por exemplo, pudesse colaborar na divulgação das principais informações sobre o autismo, pois vivíamos na mais absurda e completa falta de divulgação.

A escassez de programas na mídia sobre o assunto nos angustiava, pois sabíamos do enorme poder de alcance que a mídia televisiva tem  junto a TODAS as classes sociais. Assim que as primeiras informações sobre a sinopse começaram a veicular, ficamos sabendo que teríamos uma personagem com Síndrome de Asperger.

Confesso que torcia para que o personagem tivesse um comprometimento maior, pois nas poucas vezes em que o autismo ganhou espaço na TV os casos retratados foram os depessoas com síndrome de Asperger ou com autismo de alto funcionamento. A meu ver e sentir, era preciso mostrar a outra face da moeda! Mostrar que o autismo tem vários lados, várias nuances, os chamados graus de comprometimento dentro do espectro autista.

Na primeira aparição de Linda, deu-se o impacto que nenhum de nós, pais e familiares de pessoas com autismo, esperava: Linda era uma autista moderada, quase uma autista de Kanner, clássica. Explico: como havia sido divulgado que a personagem seria Asperger, ficamos todos na expectativa de ver uma pessoa Asperger! Mas, apesar deste mal entendido inicial, fiquei feliz em ver que a novela não embarcaria no  estereótipo autista-gênio-com habilidades excepcionais.

Em tempo, quero deixar registrado que NÃO tenho nada contra as pessoas que se encaixam nesta parte do espectro( Asperger , Savant  e Autismo de Alto Funcionamento), porém seria interessante  divulgarmos também os casos de autismo mais graves.

O personagem e sua estória não ganharam muitas cenas logo no início da trama. Natural, partindo da premissa de que esta foi uma novela enorme, com muitos núcleos e personagens e nossa Linda era apenas e tão somente uma personagem secundária, de uma trama paralela.

E, tão logo as primeiras cenas de Linda foram ao ar, pipocaram críticas ao personagem!

Nas redes sociais era fácil encontrar reclamações contemplando o fato de que “meu filho não apresenta tal estereotipia”.

E por aí se seguiram muitas outras críticas e ponderações.

Gostaria de propor a reflexão de dois casos bem conhecidos e emblemáticos de personagens que ficaram marcados na memória popular:

“Heleninha Roittman ( a alcoólatra vivida de forma majestosa por Renata Sorrah em Vale Tudo) e Tarso Cadore (o rapaz esquizofrênico que ganhou vida na interpretação IRRETOCÁVEL de Bruno Gagliasso , em Caminho das Índias).

Ambos os personagens retratavam temas, até  então, pouco abordados em novelas.

Recordo que, ainda adolescente,( em 1988, quando Vale Tudo foi exibida) fiquei assustada com as consequências dramáticas que o alcoolismo poderia trazer para a pessoa afetada pelo vício e para o núcleo familiar envolvido.

Já a novela Caminho das Índias (2009) trouxe para a sala de estar da casa de milhões de brasileiros o drama da esquizofrenia, mostrando ainda a dificuldade da família em aceitar o diagnóstico. A novela exibiu uma abordagem diferenciada e inovadora ao mostrar o personagem de Bruno, esquizofrênico, pertencente a uma classe social mais abastada, se contrapondo a um outro personagem, também esquizofrênico, porém de uma classe social mais humilde. Apesar de conviverem com o mesmo transtorno, suas famílias lidavam de formas distintas com a doença. A mãe do rapaz mais humilde (vivida por Neusa Borges , também fantástica no papel!) não somente aceitava o transtorno como também buscava por ajuda médica, ao passo que a mãe do personagem de Bruno, negava veementemente a situação de seu filho e procurava mascarar a realidade o quanto podia, apesar de pertencer a uma família que poderia custear tratamento adequado ao seu filho.

E o que estas  tramas distintas, separadas por duas décadas, têm a ver com a nossa Linda em questão? TUDO! Absolutamente tudo!

Será que as pessoas dependentes do vício do álcool se viram fielmente retratadas pelo personagem Heleninha Roitman? Será que houve exageros ou falhas na construção do personagem ou até mesmo na forma como a trama foi conduzida ?

Da mesma forma, como se sentiram as pessoas com esquizofrenia e seus familiares? Será que o personagem Tarso Cadore era constituído da veracidade necessária ou houve muita fantasia e romantismo em determinadas cenas?

Será que todas as pessoas que têm esquizofrenia se reconheceram naquele personagem?

Entretanto, a visão que tive, enquanto telespectadora, foi a melhor possível! Mas sou leiga nestes temas.

Assim sendo, voltando ao tópico principal deste post, creio que a novela NÃO foi escrita para nós, para nossa comunidade azul. A novela foi feita para a sociedade em geral!

Porque cada um de nós, mães, pais e familiares de autistas, somos ESPECIALISTAS no assunto, pois acabamos nos tornando experts para ajudar nossos filhos. Desta forma, identificamos com MUITA facilidade todos os erros, os tropeços e as inverosimilhanças apresentadas pela novela.

Explico: se, muitas vezes, os melhores e mais reconhecidos especialistas em autismo divergem em inúmeros aspectos e questões dada a enorme amplitude do espectro bem como os seus variados e complexos graus de comprometimento, como exigir que uma novela (uma obra de FICÇÃO ) possa retratar, fielmente, todos os autistas em um só personagem?

Tivemos alguns tropeços inegáveis , como por exemplo:

-A malfadada esteira ergométrica foi praticamente apresentada como a solução de todos – ou quase todos – os problemas de Linda.

-As sessões com o Psicólogo foram pouco mostradas, assim como não houve menção ao fato da necessidade do tratamento multidisciplinar. A importância do diagnóstico precoce não foi sequer mencionada…

-E apesar de tudo isso, surpreendentemente, Linda evoluiu com rapidez, passando de uma autista quase não verbal a uma autista de um funcionamento bastante satisfatório.

Claro que esta foi outra grande incongruência da novela!

Nós, que vivemos e habitamos este grande universo azul, sabemos que é muito pouco provável um autista clássico chegar a idade adulta sem receber  nenhum tratamento, e então, como num passe de mágica, depois de algumas poucas sessões de psicoterapia e inúmeras corridas na esteira, se tornar um autista de alto funcionamento. Sabemos que uma autista com um grau de comprometimento severo sem diagnóstico precoce e sem tratamento adequado JAMAIS apresentaria a evolução meteórica de Linda.

 

Na reta final da estória, o núcleo de Linda ganhou força e destaque. O autor Walcyr Carrasco  criou um romance para Linda e Rafael, o advogado ” boa praça, bom rapaz e genro que toda mãe gostaria de ter ” ( menos a Neide, é claro, a mãe de Linda).

Através do envolvimento com Rafael, Linda começa a perceber o mundo que a cerca, aceitando a socialização com os demais e se interessando em sair de seu “casulo”.

Acredito que o objetivo deste suposto “envolvimento amoroso” seria mostrar a importância do AMOR, na concepção ampla e mais abrangente da palavra. O resgate através do AMOR, recurso este que o autor utilizou com outros personagens, inclusive com o vilão Félix, que foi regenerado e resgatado pelo amor.

Sabemos pois que, tratando-se de uma obra fictícia, o autor preferiu “romantizar” o autismo, porém devemos ressaltar que autismo NÃO é conto de fadas! É óbvio que, torno a reiterar, tendo iniciado a novela com o grau de comprometimento apresentado, seria pouco provável que o personagem caminhasse para este desfecho. E, como em todo conto de fadas que se preze , Linda casou-se com Rafael e foram felizes para sempre!

Este é um lindo final para a ficção, e embora existam autistas que se casam e/ou mantêm um relacionamento duradouro, sabemos que apenas uma minoria dentro do espectro caminhará para este desfecho na vida real.

Tendo analisado os pontos negativos da trama, entendo perfeitamente a enorme FRUSTRAÇÃO que se abateu sobre todos os familiares de pessoas autistas! Esperávamos muito mais! PRECISÁVAMOS de muito mais!

Foram muitas décadas de ostracismo, falta de informação e divulgação inexistente. Apostamos alto nesta novela. Mas, neste ponto da análise, exponho minha humilde opinião sobre o assunto: a novela trouxe o assunto para a casa de milhares e milhares de brasileiros, de TODAS as classes sociais, de todas as raças, credos e etnias. Brasileiros do Oiapoque ao Chuí foram apresentados ao AUTISMO e aos autistas, ainda que de forma romanceada, ainda que de forma estereotipada.

Ainda que tenham existido todas as incongruências que listei acima,  nenhuma delas é capaz de apagar a contribuição da novela: a DIVULGAÇÃO do tema!

Por diversas vezes, em experiências pessoais com meu filho, vivi situações desagradáveis e estressantes e, por que não dizer, degradantes. Mesmo sendo um direito de meu filho assegurado por Lei, cansei de ter que explicar às pessoas o que era autismo, para que ele pudesse ter sua prioridade de atendimento respeitada. Na maioria das vezes, as pessoas olhavam meu filho dos pés à cabeça e, por não encontrarem “nada fora do lugar”, continuavam a me questionar, como se eu estivesse mentindo sobre um assunto de tamanha gravidade e importância.

Percebi que estas situações se tornaram cada vez mais raras , graças a Deus! E embora deva ressaltar o belíssimo trabalho que TODOS os pais e familiares de autistas realizam BRASIL afora, incansavelmente, dignamente e com toda força e desprendimento possíveis pela divulgação e conscientização do Autismo, (trabalho no qual eu e meu marido participamos também), reconheço que precisaríamos viver ainda “muitas vidas” para alcançarmos todo o público que a novela alcançou. Isto é um fato inegável!

Também concordo com o fato de que o tema poderia ter sido explorado de forma diferente, com um foco maior nas terapias ou na importância da inclusão escolar, social e no mercado de trabalho, por exemplo. Poderiam ter mostrado as dificuldades e o preconceito que a família enfrenta.

Admito que antes da novela estrear tive MUITO receio de o autor ficar tentado a cair na armadilha da vitimização do autismo, resvalando no lugar comum que prega que pessoas com necessidades especiais são incapazes e “coitadinhas”.

Assim sendo, foi com muito alívio que assisti ao diálogo entre o personagem de Antônio Fagundes e os pais de Linda, logo nas primeiras semanas da novela.Em determinado momento da conversa, o Dr. César diz: “Autista não é inválido. Existem várias formas de um autista ser inserido na sociedade”. Esta frase é extremamente significativa! A mensagem embutida nesta frase diz que Autistas SÃO capazes! Considero esta frase uma grande vitória!

E Walcyr Carrasco nos presenteou com uma bela mensagem de incentivo a doações para pessoas com autismo no último capítulo da novela.

Ele poderia ter incluído esta cena em qualquer outro dia, mas a cena foi incluída justamente no último capítulo, aquele que sabemos que tem um altíssimo índice de audiência. Nossa bandeira e nossa causa recebendo apoio em horário nobre

Também gostaria de destacar a performance de Bruna Linzmeyer, que em muitos momentos me emocionou com seus trejeitos e estereotipias. O olhar perdido e vago  que ela construiu para seu personagem estava sempre buscando algo em algum lugar distante…e este olhar me remeteu a tantas lembranças! Algumas felizes, outras doloridas… Mas todas reais!

Na escuridão absoluta e total, onde imperavam o preconceito e o desconhecimento, Linda foi o feixe de LUZ que resgatou do limbo dois milhões de autistas brasileiros.

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