Metamorfose ambulante

Metamorfose ambulante

 
 

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Hoje vamos abordar um assunto muito polêmico e que gera debates acalorados entre mães e pais de autistas toda vez que vem à tona. Como nos sentimos verdadeiramente em relação ao Autismo? Se o autismo pudesse adquirir a forma humana e tivéssemos a possibilidade de dizer-lhe tudo o que sentimos, o que lhe diríamos?

Já sabemos que, quando recebemos o diagnóstico, nossa vida é impactada de forma extrema e a sensação que temos, inicialmente, é a de que chegamos ao fim e que não há solução para nossas vidas.

Da mesma forma, já é do conhecimento de todos que esta descoberta desperta em nós sentimentos ambíguos, diversos e totalmente contraditórios. De uma hora para outra, temos que aprender a conviver com a tristeza, o desespero, o luto, o inconformismo, o medo do futuro e a depressão, dentre tantos outros sentimentos.

Para alguns, o luto é breve e passageiro. Para outros, no entanto, esta fase pode ser mais demorada, prolongando-se por um tempo maior. E existem aquelas famílias que jamais irão superar o luto, tamanho o sofrimento que vivenciam.

Se não existe manual para guiar nossos passos e nos conduzir nesta caminhada, o que dizer então do nosso sofrimento? NÃO existe fórmula mágica, nem tempo determinado ou pré-estabelecido para pautarmos o nosso sofrimento.

Cada um de nós é um indivíduo com suas próprias características e vivências e, assim sendo, responde de forma única e peculiar às dificuldades e obstáculos que a vida nos oferece.

 

Após o luto, vivenciamos a fase da aceitação.

E é justamente sobre esta fase, suas implicações e desdobramentos que eu gostaria de falar.

Para melhor compreensão, vamos denominar a fase do luto de estaca zero, ao passo que a fase da aceitação será chamada de marco 100.

Desta forma, variamos nosso estado de espírito de 0 a 100. Obviamente que o tempo de variação entre estes dois estágios depende, e MUITO, de cada indivíduo.

Saímos da mais absoluta tristeza e desespero para descobrir a luz no fim do túnel e, com ela, a esperança em dias melhores.

É muito comum, neste estágio, que também sejamos acometidos por sentimentos dúbios!

Exponho neste momento minha experiência pessoal: ao contrário da grande maioria das famílias, vivi meu luto, ANTES do diagnóstico, em doses homeopáticas, durante os 9 meses da via crúcis empreendida na busca de um profissional que levasse em conta minhas observações a respeito das alterações comportamentais de João Pedro.

Assim sendo, quase que imediatamente após o diagnóstico entrei na fase da aceitação.

E partindo da premissa de que o autismo era (e ainda é!) parte integrante de meu filho (embora seja apenas um aspecto da sua personalidade, não sendo capaz de defini-lo e, muito menos, resumi-lo como pessoa) eu imaginava que por AMAR meu filho com todas as minhas forças e sem restrições, eu também “precisava” amar o autismo!

Cheguei a afirmar isto algumas vezes e mencionar o fato em um texto escrito em 2011.

Porque, em meu entendimento, a relação era muito confusa!

Quanto do autismo existe em meu filho? Onde começa um e termina o outro? Onde termina a minha rejeição pelo autismo e começa o amor por meu filho? Estas perguntas povoaram meus pensamentos durante muito tempo e me fizeram andar em círculos.

Entretanto, ao longo da caminhada vamos adquirindo novas experiências que nos agregam vários aprendizados. Aprendizados que podem ser responsáveis por trazer luz para nossas dúvidas. Conversando com amigas azuis, trocando ideias e argumentando, pude perceber o quanto eu estava equivocada!

Lendo o testemunho de uma amiga, muito especial, minha mente teve o “insight” que eu tanto procurava e não encontrava. Novamente, reforço a importância valiosa de conversarmos umas com as outras, pois o fato de vivermos a mesma situação nos torna capaz de nos compreendermos como mais ninguém será capaz de fazer.

Por que trago este assunto à tona?

A proximidade do fim do ano sempre faz com que tenhamos vontade de avaliarmos nossas vidas, fazendo uma retrospectiva de tudo o que nos aconteceu. E NÃO tenho medo de mudanças!

Não tenho receio ou pudor de afirmar que  estive equivocada em qualquer opinião ou sentimento. O ÚNICO medo que tenho é de não ser capaz de mudar!

Tenho medo de não estar pronta para receber a mudança e de não me permitir ser modificada, para melhor, por ela! Tenho receio de envelhecer agarrada às minhas concepções e convicções, como se fosse a “dona da verdade” ou a “senhora da razão”.

E, como diz a canção de Raul Seixas,

“eu prefiro ser esta metamorfose ambulante / do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” .

Esta sou eu…

E você? Que conceito, ideia ou pensamento gostaria de rever?
Denise Aragão

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