A Lenda dos 7 anos

 

 

Provavelmente toda mãe e pai de autista conhece a “Lenda dos 7 anos”.

Se, por acaso, você não está ligando o nome ao fato, aguarde um pouquinho e chegaremos lá.

O autismo, bem como tudo que o cerca, ainda é envolto em uma aura de mistério e desinformação. Seja pelo fato de ter sido descrito pela primeira vez recentemente (em 1943) ou até pelo fato de abrigar uma quantidade de mitos e estereótipos que foram propagados, ao longo de anos, a seu respeito.

Apenas 70 anos se passaram desde que Leo Kanner (em 1943) e Hans Asperger (em 1944) conduziram seus estudos e denominaram de autismo o desenvolvimento diferenciado apresentado pelo grupo de crianças que ambos avaliaram.

Desta forma, devemos considerar que a medicina ainda engatinha em relação a tudo que se refere ao assunto, observando o pouco tempo de descoberta da síndrome.

Vale a ressalva de que, embora tenha sido descrito pela primeira vez APENAS em 1943, NÃO significa que não existiram autistas antes desta data!

O parco conhecimento sobre o tema produziu, ao longo do tempo, inúmeras visões equivocadas e estereotipadas que vêm sendo divulgadas como fato concreto. Seguem algumas delas:

“A pessoa autista vive em outro mundo”.

Esta afirmação, em minha opinião, é a maior de todas as balelas que existem a respeito do autismo. Este mito há muito caiu por terra, pois já se sabe que as pessoas com autismo vivem em nosso mundo; elas apenas apresentam uma forma diferente de percebê-lo, senti-lo e vivenciá-lo.

Apesar disso, muito ainda terá que ser feito para sepultarmos de vez esta ideia.

“Pessoas autistas são gênios e possuem habilidades extraordinárias.”

Esta afirmação, embora não seja totalmente incorreta, porque alguns autistas realmente apresentam habilidades especiais, seja para memorizar, desenhar ou tocar algum instrumento, por exemplo, não corresponde à realidade de todos os autistas. Este grupo representa uma parcela minoritária dentro do espectro (apenas 10%) e afirmar que todos os autistas são geniais é tão ou mais absurdo quanto dizer que vivem em outro mundo ou que são incapazes de aprender.

Considerando estes aspectos, voltemos então à “lenda dos 7 anos”.

Quando fui apresentada a este universo azul, me deparei inúmeras vezes com esta lenda.

Era amplamente divulgado que crianças autistas apresentavam uma evolução fantástica até os 7 anos e que, depois disso, este desenvolvimento se reduzia a níveis frustrantes.

Não é segredo para ninguém a existência da plasticidade neural ou neuronal, que é a capacidade que os neurônios têm de formar novas conexões a cada momento.

Esta plasticidade é REAL e faz toda a diferença para nossas crianças, daí a importância do diagnóstico precoce. Não cabe nenhum questionamento quanto à sua existência e eficácia.

Da mesma forma, também é verdade que a plasticidade em adultos não é tão ativa quanto nas crianças. A minha discordância se dá em relação à afirmação de que autistas somente evoluem até os 7 anos!

Autistas evoluem em qualquer faixa etária, desde que tenham acesso a tratamento adequado e acompanhamento médico especializado. Não podemos impor limites aos nossos meninos e meninas azuis!

Esta lenda foi responsável por muitas noites insones que experimentei no primeiro ano após o diagnóstico do João Pedro. Me sentia empreendendo uma verdadeira corrida contra o tempo! E isso me gerava angústia, ansiedade e ainda mais medo do futuro.

Não me angustiei por muito tempo (graças a Deus!), porque tive orientação da equipe terapêutica sobre o assunto e pude acalmar meu coração.

Porém, me causa espanto e tristeza perceber que estas afirmações ainda circulam e se propagam na velocidade de um raio entre as pessoas, principalmente entre pais e mães de autistas.

Não podemos permitir que informações inadequadas roubem a nossa ESPERANÇA e nossa FÉ na evolução de nossos filhos, porque limitar o potencial de nossos filhos é não acreditar em sua capacidade. E o ÚNICO limite que devemos aceitar é o CÉU, pois o impossível não existe!

Mundo Azul Informativo

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