Quando a presença pode ser sinônimo de ausência.

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Quando a presença pode ser sinônimo de ausência.

 
 

Há alguns dias, recebi um e-mail de uma mãe de um menino com autismo. Esta mãe, já madura, na faixa dos 45 anos, me pedia orientações sobre como agir em relação ao seu companheiro e pai de seu filho autista.

Em seu relato, ela informava que a relação de ambos jamais tinha sido a mesma após a descoberta do diagnóstico, que seu marido nunca tinha superado o “baque” da notícia e que, por este motivo, não conseguira aceitar, verdadeiramente, a condição do menino.

À época do diagnóstico, ele inclusive chegou a cogitar a possibilidade do divórcio, mas acabou voltando atrás, decidindo manter o casamento. Ainda segundo seu relato, seu esposo tem muito “receio” do julgamento alheio, fato que ela credita ter sido o grande motivador dele ter voltado atrás em sua decisão de se separarem.

Apesar de ter permanecido, nunca se envolveu com o menino efetivamente. Não sabe lidar com ele, pois nunca sequer tentou aprender, embora ela sempre tenha insistido e incentivado a aproximação entre pai e filho. Raramente sai com o filho e, quando o faz, é obrigado pela mulher. Quando, por vezes, ela questiona a sua falta de envolvimento com a situação como um todo, ele responde rispidamente: “eu poderia ter ido embora, como tantos outros, mas fiquei e não te abandonei!”

Apesar de a convivência seguir com todas estas dificuldades, nossa amiga tem medo de ficar sozinha.

Diz o ditado popular que o casamento é uma instituição que já nasce falida. Discordâncias à parte, o fato é que manter um relacionamento conjugal (desde o tempo de nossas bisavós) sempre demandou muito respeito, carinho, admiração, fidelidade mútua, além, é claro, do AMOR!!!

O que nos diferencia de nossas avós e bisavós, contudo, é o fato de que, com o advento do divórcio, recebemos a possibilidade (antes negada às mulheres!) de só continuarmos casadas, mantendo o “PARA SEMPRE” dos contos de fadas, se formos realmente felizes.

É fato notório que no passado o casamento só era dissolvido com o falecimento de um dos cônjuges, ainda que o amor, o respeito e a fidelidade não existissem há muito tempo.

A década de 60 surgiu libertária e reacionária, principalmente para nós mulheres. A chegada da pílula anticoncepcional nos permitiu ter controle sobre nosso corpo e assumir parte das rédeas de nossas vidas. O movimento feminista exigiu igualdade de direitos e, como símbolo de libertação, queimou sutiãs em praça pública.

Mesmo com todos os avanços e reformas, continuamos nos casando e tendo filhos, procriando e seguindo o curso natural da espécie humana.

Obviamente, existem MUITAS diferenças entre os casamentos de antigamente e os relacionamentos atuais. A diferença primordial, a meu ver, consiste no fato de que o casamento deixou de ser uma IMPOSIÇÃO para tornar-se uma ESCOLHA! Casar NÃO é mais o objetivo principal da vida de uma mulher, bem como, há muito, deixou de ser visto como um fim em si mesmo.

Conquistamos o direito de escolher e, consequentemente, viver com a pessoa amada! O relacionamento conjugal é uma via de mão dupla, onde deve existir um esforço mútuo para estar na mesma sintonia.

Sabemos que o nascimento de um filho provoca mudanças nas estruturas das relações do casal. Seja por razões culturais ou até mesmo biológicas, homens e mulheres vivenciam a chegada dos filhos de forma diferenciada e, por vezes, conflitante.

Quando este filho é uma criança com necessidades especiais, a questão tem um desdobramento muito maior. Crianças com necessidades especiais demandam uma atenção e dedicação infinitamente maior do que crianças neurotípicas.

E o casamento sofre um novo golpe, impactado com esta notícia!

Muitos casamentos não suportam e se esfacelam, muito provavelmente porque já apresentavam sinais de desgaste e o diagnóstico apenas acelerou este processo.

Outros, embora tenham suas estruturas abaladas, criam estratégias capazes de restaurar os alicerces e seguir em frente, mais fortes do nunca.

Existem ainda aqueles que, mesmo esfacelados, em pedacinhos, continuam juntos, seja por medo, insegurança, amor ao filho, receio do julgamento

alheio…

Seja por que motivo for, estas pessoas seguem suas vidas, de forma fragmentada, incapazes de vivê-las em sua plenitude, porque carregam sobre os ombros um casamento infeliz e acabado, tal qual um fardo, pesado e melancólico. Cônjuges que decidem ficar, quando na verdade gostariam de ir ter ido embora…

E cá estamos nós, no “x” da questão!

É extremamente difícil e eu diria, até mesmo, PERIGOSO emitir uma opinião sobre uma situação que não vivi e que desconheço. Se conselho fosse bom…

Nossa amiga relata o medo de perdê-lo e, consequentemente,  o medo da solidão. Mas será que é possível perder aquilo que nunca tivemos?

Quando estamos em um mesmo barco, se faz necessário que todos remem na mesma direção, caso contrário são  grandes as chances de o barco chegar a lugar nenhum. E se somente um estiver remando, corre-se o risco de sobrecarregar de forma cruel e desumana aquele que estiver carregando a situação sozinho.

Esta situação que já perdura há muitos anos somente serve de combustível para a mágoa que ambos estão sentindo um do outro. Sou e sempre serei uma entusiasta ferrenha e convicta do diálogo!

Quem sabe você não devesse chamá-lo para uma conversa franca, aberta, onde vocês pudessem expor, sem receios ou pudores, TUDO o que machuca e os afasta um do outro?
Se a conversa não surtir o resultado que você espera, a decisão está em suas mãos.
Como mencionei no início do texto, o casamento, bem como manter-se casada, deixou de ser uma imposição e se tornou uma escolha.
Você, querida Mãe Azul, me pergunta o que fazer quando, na verdade, esta reposta está onde ela sempre esteve: dentro de você mesma!
Pois a PIOR solidão que existe, minha amiga, é a solidão a dois…

 

Denise Aragão

One response to “Quando a presença pode ser sinônimo de ausência.”

  1. Eidna Minchio says :

    concordo plenamente com a opinião de que não se pode perder o que não se tem.

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