Existe mola no fundo do poço? A força que advém da fraqueza.

Existe mola no fundo do poço? A força que advém da fraqueza.

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É comum ouvirmos as pessoas dizerem que após enfrentarem situações de grande dificuldade chegaram ao fundo do poço, tendo esgotado todas as possibilidades de resolver o problema. Entretanto, muitas destas pessoas também nos oferecem depoimentos em que narram que neste mesmo poço onde “caíram” havia uma mola. Uma mola propulsora que lhes impulsionou para longe, para frente, para a volta por cima.

Mas por que às vezes, para darmos a volta por cima, se faz necessário tocarmos o fundo do poço? Esta afirmativa ocupou meus pensamentos e criou em mim uma necessidade de refletir sobre sua veracidade.

Em momentos de extrema dificuldade e desespero, é comum nos depararmos com sentimentos de desânimo, tristeza e aquela terrível e inexplicável certeza de que tudo vai dar errado (a velha máxima que diz que se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível – se você quiser ler mais sobre o assunto, leia as Leis de Murphy!). Podemos pensar em mil hipóteses positivas, mas acabamos quase sempre nos agarrando ao pior cenário possível (com raras exceções, exceções estas as quais eu dedico toda a minha admiração, pois estou longe de pertencer a este seleto rol dos otimistas incorrigíveis e irrecuperáveis).

Seria o ser humano, por natureza, masoquista? Por que pensar o pior, se podemos pensar no melhor? Esperar pelo melhor é tão mais confortável! Mas esperar por um desfecho positivo não nos assusta ou nos impressiona. Nos causa pavor, desde sempre, o desconhecido, o que não temos noção do que é e que, por isso mesmo, projetamos de forma negativa.

E é justamente o que nos apavora que nos resgata da nossa zona de conforto, que nos permite criar forças para ousar, para superar nossos próprios limites. Mas não só os pessimistas se defrontam com situações exasperantes! O fato é que, mesmo o maior otimista do mundo – e eu penso que conheço um forte candidato a este título (Meu Pai!), já se deparou com situações que tiveram desenlaces totalmente contrários à sua vontade. E, muitas vezes, é neste momento de pavor, onde não sabemos como agir ou o que fazer que percebemos a luz no fim do túnel.

A última vez que visitei o fundo do poço foi há exatos 6 anos atrás .

Julho de 2007. Havia recebido o diagnóstico do João Pedro há quase 6 meses e dedicava TODAS as minhas forças a estimulá-lo o maior número de vezes possível durante todos os dias, 7 dias na semana, 30 dias no mês.

Estava em frangalhos, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Me fazia de forte para meu marido e para nosso filho mais velho e oferecia acolhida, consolando nossos pais e irmãos. Nas poucas horas em que meu anjo dormia (e eram POUCAS mesmo, cerca de apenas 4 horas por noite), eu me dedicava a ler tudo o que encontrava sobre Autismo, estudando incessantemente, desesperadamente…

João Pedro evoluía lentamente e, em vários momentos, tive a sensação de darmos 2 passos para a frente e 3 passos para trás. A minha ANSIEDADE em estimular meu filho de forma ininterrupta e de maneira inadequada – embora eu não soubesse deste fato à época – não colaboravam em nada e penso que, na verdade, dificultavam um pouco a evolução do meu menino.

Meu corpo também dava sinais de que alguma coisa, ou quase tudo, ia muito mal. A balança registrava 11 quilos acima do normal, mesmo sem ingerir uma quantidade maior de alimentos. Desânimo, cansaço e depressão eram meus companheiros, da hora que eu acordava até o momento de dormir. Na frente de todos, eu era aquela que era FORTE!

Sozinha, de frente para o espelho, eu enxergava meu verdadeiro Eu: um arremedo do que eu havia sido outrora. De frente para o espelho, eu não podia mentir para mim mesma. Era inútil insistir em tudo aquilo…eu precisava admitir: HAVIA CHEGADO AO FUNDO DO POÇO!!!

E então, justamente neste momento crítico, apesar de toda a minha fraqueza e debilidade, eu fui capaz de reconhecer que precisava de AJUDA. Sozinha eu não conseguiria mais. Eu precisava de ajuda!

Foi preciso chegar ao fim da linha para concluir que a evolução de meu filho dependia também de meu estado de espírito, do meu bem estar físico e mental. Os exames de sangue acusaram várias disfunções hormonais, que foram responsáveis em fazer os ponteiros da balança subirem impiedosamente. Era nítido que estava deprimida.

Quando finalmente busquei ajuda, pude perceber que várias atitudes minhas estavam equivocadas. Afastando-me da situação, compreendi que o Autismo era uma life-long condition, ou seja, uma condição que perdura e se estende durante toda a vida. Agindo da forma que eu agia, muito provavelmente em breve eu não teria mais forças e energia para prosseguir – e ainda teríamos uma vida toda pela frente.

Aprendi a ter CALMA e controlar um pouco mais a minha ansiedade. Percebi que deveria comemorar as pequenas conquistas diárias ao invés de me angustiar com acontecimentos futuros. Compreendi que uma caminhada de um milhão de passos precisa do primeiro para ser iniciada e que este primeiro passo é tão ou mais importante do que o último.

Tal qual uma bateria que precisa ser toda consumida para ser recarregada, eu precisei chegar ao meu limite para renascer. Porque nem sempre o fundo do poço é o fim. Muitas vezes ele pode ser o recomeço, a volta por cima, o início de uma nova jornada.

Encontrei minha força maior em meio às minhas fraquezas. Foi na adversidade que extraí forças para seguir adiante.

Denise Aragão

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