A arte deu a mão ao autismo na Escola Secundária Domingos Sequeira

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A arte deu a mão ao autismo na Escola Secundária Domingos Sequeira

Publicado em 20 Dezembro 2012 às 9:52 am. Tags: 

No início, qualquer papel que lhe dessem para as mãos era invariavelmente dividido em seis retângulos para ali desenhar uma história, quase sempre a mesma. No final de “Arte e Autismo” já não foi assim: Paulo, 8 anos, criou um dos trabalhos mais vistosos do projeto, um Calvin & Hobbes pintado quase sem mácula.

Para além deste caso de “mudança extraordinária”, como é descrito, há mais exemplos do sucesso deste projeto da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Leiria (APPDA – Leiria): um outro autista, muito profundo, revelava bastantes dificuldades em ter noção do tempo e do objeto que foi criando. “Só se conseguia trabalhar com ele fazendo a manipulação total das mãos. Mas no final ele já esfregava as mãos na tela por ele. Há ali manchas que foi ele que fez. É um bom sinal”, afirma José Oliveira, coordenador de artes da Escola Secundários Domingos Sequeira (ESDS), que apoiou e se envolveu em “Arte e Autismo”.

João Teodósio, presidente APPDA – Leiria, lembra que “a mais-valia deste projeto foi mesmo isso: esbater determinadas características do autismo”.

Entre outubro e novembro, dez autistas e 22 alunos da ESDS juntaram-se para dar forma a esta ideia inclusiva. “Para os nossos jovens foi uma aprendizagem muito importante, porque é uma forma de se relacionarem. Eles gostam de estruturação e de rotinas e se essa comunicação for conseguida, consegue-se tirar muito potencial deles”, sublinha João Teodósio.

Depois do convite feito pela APPDA – Leiria, a escola preparou-se a sério. Foi feita uma palestra aberta à turma participante e a outras da ESDS e, depois, os alunos voluntários, com idades entre os 16 e os 18 anos, receberam formação específica com duas técnicas especializadas.

“Exigi que tivéssemos formação especializada sobre o assunto. Verificou-se que muitas ideias que tínhamos relativamente à doença estavam erradas e o que pensávamos que deveríamos fazer em muitos aspetos estava também errado”, reconhece José Oliveira.

Essa preparação ajudou à integração entre estudantes e os jovens autistas, desenvolvendo-se uma relação “extremamente fácil” entre eles, descreve o professor, que coordenou o trabalho à distância, interferindo o mínimo. “Interessava-nos que se estabelecesse uma relação entre os estudantes e os jovens autistas”, estes com idades compreendidas entre os 6 e 20 anos.

José Oliveira, professor que coordenou “Arte e Autismo”, e João Teodósio, presidente da APPDA-Leiria

Trabalharam em grupos ao longo de várias semanas, criando quadros e até um conjunto escultórico. “Temos desde 90 por cento de trabalho do aluno, até aos 90 por cento do trabalho do autista”, conta José Oliveira, notando que as obras de arte foram crescendo à medida das possibilidades de cada um.

O relacionamento entre alunos da ESDS e os autistas foi de tal modo surpreende que, lembra José Oliveira, por vezes foi necessário retrair um pouco o entusiasmo dos voluntários. “O excesso de energia não é aconselhável com esta doença. Mas as críticas foram muito boas e o desejo deles era fazer de novo já. Por vontade deles, continuávamos já no segundo período”.

O projeto, que teve o apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), envolveu dez jovens autistas institucionalizados em Leiria e Porto de Mós, num universo de cerca de duas centenas de autistas que se calcula existirem no distrito. “A nossa associação tem três anos em Leiria e temos dado passos gigantescos, mas falta-nos fazer um levantamento exaustivo”, assume João Teodósio.

Para os dez participantes em “Arte e Autismo”, foi a oportunidade de fazer algo fora das instituições que os recebem. “A nossa missão é trazê-los para fora, para o ensino regular, para que a inclusão se faça nos dois sentidos”, explica o presidente da APPDA-Leiria, que considera o processo de aprendizagem desenvolvido “muito importante”.

Segundo o responsável da associação, a ESDS foi escolhida porque havia “a noção de que esta escola facilitava a inclusão” e por ser “referência em Leiria”. “Já tinha tido prémios por ter alunos na primeira linha a diversas disciplinas e acaba por estar na primeira linha nesta área também. Além de que a adesão dos alunos foi espantosa e incrível”.

Para os alunos da ESDS, a experiência foi uma revelação. “Terá talvez sido até mais eficaz para os jovens da escola do que para os jovens portadores de autismo, no sentido de os levar a perceber e a aceitar melhor a diferença. A arte aqui foi um veículo”, refere José Oliveira. Inclusivamente alguns encarregados de educação comentaram com professores ter notado diferenças na atitude dos seus filhos face a este tipo de doenças. “Ao longo deste projeto fizemos uma grande aprendizagem”.

O sucesso da iniciativa – que culminou com a exposição dos trabalhos no átrio da ESDS – foi tal que responsáveis e alunos querem mais. A APPDA – Leiria já assumiu que vai apresentar nova candidatura ao INR para tentar repetir “Arte e Autismo” para o ano.

“A ideia é começar com esta área mais lúdica e técnica e, a partir daí, tentar que se alargue ao ensino inclusivo. Ainda temos de caminhar muito, mas acho que vamos conseguir lá chegar”, conclui João Teodósio.

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