Ginástica artística transforma vida de crianças autistas

Atividade aprimora comunicação e coordenação motora e ajuda famílias a adaptar jovens ao convívio social com autonomia

Ginástica para autistas: Rodrigo comemora com Gustavo cada exercício concluído

Ginástica para autistas: Rodrigo comemora com Gustavo cada exercício concluído – Marcos Michael

Há menos de um ano, Luciana Nascimento da Silva Medeiros se queixava da falta de carinho do filho, Gustavo. Era difícil para ela, admite, entrar no universo da criança, que nunca deixava o que estava fazendo para dedicar atenção à mãe. Então com 2 anos de idade, ele não falava e parecia desconectado do mundo externo. Da família e dos amigos, Luciana ouvia que devia ter paciência, “pois cada criança tem seu tempo”. Uma reportagem de TV escancarou a realidade. “A matéria mostrava crianças autistas. E eu vi que elas tinham as mesmas características do meu filho”. A primeira reação foi trancar-se no quarto e chorar. Mas logo percebeu que precisaria reagir e ajudar o filho a enfrentar os desafios impostos pelo autismo – transtorno no neurodesenvolvimento que atinge uma em cada 88 pessoas no mundo.

A busca por formas de se aproximar de Gustavo levaram Luciana ao professor Rodrigo Brivio, que desde 2006 dá aulas de ginástica artística a crianças e adolescentes com autismo. Antes mesmo de completar 3 anos, Gustavo tornou-se um dos caçulas das turmas, que hoje tem cerca de 80 alunos. Foi um alento. “As principais mudanças são em comandos simples, aos quais ele não obedecia antes, como calçar o sapato”, conta Luciana. A autonomia é um dos focos da aula do “tio” Rodrigo, como gosta de ser chamado pelas famílias dos alunos. “A aula começa antes de entrarmos no ginásio, quando a criança tira e guarda sozinha o sapato. Como a maioria, Gustavo só não fazia isso antes porque não era estimulado. Se você tem alguém que faça tudo, não vai se esforçar, seja criança ou adulto”, diz o educador.

Durante a atividade, Gustavo sabe que depois de ouvir “um, dois, três”, o “já” indica o momento de soltar as argolas para se jogar no colchão macio. Saber cumprir ordens também é importante. Veterana, a colega Helena, de 8 anos, anda pela barra de equilíbrio com a naturalidade de quem brinca nas costas do sofá de casa. Parece distraída. Mas quando chega ao final, aguarda a permissão para saltar. “Isso é uma superação. A ginástica é a atividade que me permite mostrar para todos: ‘Olha como minha filha é capaz'”, orgulha-se Valéria Mousinho Marques Fernandes, que leva a filha às aulas há três anos. Apesar das habilidades que a menina desenvolve, foi na comunicação verbal a maior mudança percebida pela família. “A primeira coisa que me impactou foi vê-la contar e pedir ajuda. Uma grande conquista.”

Nada é forçado. As crianças aprendem de forma natural, como numa brincadeira. Não há vagas para novos alunos, simplesmente porque quem chega se recusa a sair – a faixa etária dos alunos hoje vai dos 2 aos 17 anos. Um dos motivos é a evolução progressiva, mas também a falta de profissionais especializados para trabalhar com autistas. “Não existem muitos Rodrigos por aí”, lamenta Luciana. Marisa Furia Silva, presidente da Associação Brasileira de Autismo (Abra), concorda que a escassez de mão de obra é um problema e elogia iniciativas como a do professor carioca. “Tudo o que se faz com essas crianças é muito importante. E o esporte é fundamental para o desenvolvimento delas”, observa a mãe de Renato, autista de 34 anos.

Paciência é essencial para esses profissionais. E amor. Quando recebeu a reportagem de VEJA, Rodrigo ainda exibia as marcas de arranhões no braço de um aluno do dia anterior. “Não adianta dizer que o trabalho é só maravilha. Não é. Mas gosto muito do que eu faço. Vejo que através do carinho, de um abraço, a gente consegue muita coisa”, ressalta o educador. “Sem demagogia, trato todos como se fossem meus filhos. Tenho uma carga muito grande de responsabilidade com essas famílias”, afirma. Uma de suas missões, acredita ele, é ajudar os pais a preparar filhos autistas para a vida adulta. “Minha filha precisa estar pronta para quando eu e o pai dela não estivermos mais aqui”, diz a mãe de Helena.

Mundo Azul Grupo de Pais. 

O Brasil Precisa Conhecer o Autismo.

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